13 junho 2007

Sermão do Mandato

Padre António Vieira

Trecho do Sermão do Mandato pregado na Capela Real em Lisboa, 1645.

Sciens quia a Deo exivit, et ad Deum vadit: Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos: "Sabendo Jesus que saíra de Deus e ia para Deus, como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13, 1. 3)."

Primeiramente só Cristo amou, porque amou sabendo: Sciens. Para inteligência desta amorosa verdade, havemos de supor outra não menos certa, e é que, no Mundo e entre os homens, isto que vulgarmente se chama amor, não é amor, é ignorância. Pintaram os Antigos ao amor menino; e a razão, dizia eu o ano passado, que era porque nenhum amor dura tanto que chegue a ser velho. Mas esta interpretação tem contra si o exemplo de Jacob com Raquel, o de Jónatas com David, e outros grandes, ainda que poucos. Pois se há também amor que dure muitos anos, porque no-lo pintam os sábios sempre menino? Desta vez cuido que hei-de acertar a causa. Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar, são duas cousas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afectos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração. que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos pintores do amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem que isto que vulgarmente se chama amor. tem mais partes de ignorância; e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante.

4 Comments:

Blogger Marcelo- COLET said...

Olá, sabe onde consigo o texto integral desse sermão?

12:07 AM  
Blogger Mario S. Levy said...

Marcelo, O Sermão do Mandato é uma série de sermões do Padre Antônio Vieira, escritos entre 1643 e 1670 em alguns volumes.

Tenho dois desses volumes em word. Mande-me um email que te encaminho.
Abçs,

11:01 AM  
Anonymous Anônimo said...

Olá, tudo bom?
Vi o comentário sobre o sermão do Mandato de 1645 e vi que você tem o texto na íntegra em word. Já tentei encontrar mas não há disponível em domínio públicol. Teria como você me enviar o documento por e-mail? Deixo aqui meu e-mail para você entrar em contato se possível.
julioabreupr@yahoo.com.br

Desde já agradeço a sua ajuda.

9:22 AM  
Anonymous Anônimo said...

Olá! Você ainda tem a íntegra desse texto? Agradeceria muito se puder me
Enviar: df-bh@uol.com.br

DanielFrança

9:35 PM  

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