29 outubro 2007

ESBOÇO PARA SEMINÁRIO DE “MISSÕES NA PÓS-MODERNIDADE”

"Missão Transformadora" – David Bosh

Uma idéia missionária sempre foi (e será) influenciada profundamente pelo contexto geral em que os cristãos viviam e trabalhavam.


 

Quando falamos de um período PÓS-MODERNO, pressupomos algo após a modernidade. A modernidade, por sua vez, se delineou após o longo período medieval onde questões científicas eram tratadas a partir do pressuposto metafísico. A modernidade rompeu com isso na medida em que trouxe o homem e sua razão para o lugar de Deus e das explicações metafísicas da realidade.

Porém, novos paradigmas não se firmam de um dia para o outro. São necessárias décadas, às vezes até séculos, para que desenvolvam contornos nítidos.


 

O FIM DA ERA MODERNA

René Descartes, filósofo francês, foi chamado de o "pai do Iluminismo" e fez da DÚVIDA o cerne de seu método científico. Somente através dela, dizia ele, a mente humana se livra de toda opinião baseada na confiança e se capacita para um conhecimento firmemente ancorado na razão; nascia o método dedutivo de compreensão da realidade.

Esse foi o pressuposto epistemológico de Descartes que deu o tom de como se pensava e se refletia dentro não só da ciência, mas da teologia, da filosofia e etc. Era o princípio da dúvida e da supremacia da razão. Nessa época, um pouco depois, surgiram Francis Bacon (1561-1626) com o método mais indutivo e Isaac Newton com a junção dos dois (dedutivo/indutivo).

O racionalismo e as evidências de suas conquistas científicas e tecnológicas faziam sentido de maneira tão soberba que parecia absurdo questioná-los.

Algo perigoso, contudo, aconteceria. Esses pressupostos viriam a ser rapidamente adotados também pelas ciências humanas (incluindo a teologia).


 

Atualmente, esse edifício já está sendo largamente contestado; e, por incrível que pareça, o primeiro ataque a ele partiu da disciplina onde as maiores verdades cartesianas e newtonianas parecia invioláveis: do campo da física. Albert Einstein (teoria da relatividade) e Niels Bohr (teorias que levaram à fissão nuclear do átomo de hidrogênio) introduziram uma revolução no pensamento. E com o passar do tempo, seria natural que se seguissem reações similares em outras disciplinas, incluindo as ciências humanas.


 

Uma crítica mais séria ao paradigma iluminista surgiria assim que os pesquisadores começaram a considerar mais seriamente o papel da história, do sujeito humano e do grupo social. Uma obra científica que contribui definitivamente para essa crítica foi "A estrutura das revoluções científicas" (1962) de Thomas Kuhn, onde ele afirma que o conhecimento científico não é o resultado de uma pesquisa objetiva, "instrumental" ou "mecanicista", mas o produto de circunstâncias históricas e da comunicação intersubjetiva.


 

A CONTESTAÇÃO DO ILUMINISMO

A compreensão iluminista de racionalidade era estreita e inadequada diante da necessidade indagatória do ser humano. Essa compreensão nos levou a um reducionismo desastroso do homem e de seu propósito enquanto ser.

Uma forma de se ampliar a racionalidade é reconhecer que a linguagem não pode ser absolutamente exata, e que, enfim, não é possível "definir" nem leis científicas nem verdades teológicas. As doutrinas centrais do cristianismo, assim, somente podem ser expressas em forma metafórica; qualquer tentativa de ir além disso e "explicar" doutrinas, traz consigo um "forte traço de mortalidade intelectual".

Metáfora, símbolo, ritual, sinal e mito estão sendo reabilitados em nossos dias; criam formas que sintetizam e evocam a integração de mente e vontade. Não só tocam a mente e suas concepções e evocam ação com um propósito, mas também compelem o coração.

O melhor teólogo é aquele que congrega mais da imagem e sombra da Verdade e, assim, transpõe os limites da racionalidade pura. A verdadeira racionalidade, portanto, engloba também a experiência (é interessante notar o advento dos movimentos pentecostais nessa época).

Aqui não se sugere o abandono da racionalidade. Deveríamos, de fato, reter e defender o poder crítico do iluminismo, mas deveríamos também rejeitar o seu reducionismo. A dimensão religiosa precisa ser reintegrada à nossa visão geral de realidade. Sem o elemento religioso, a vida é uma máquina sem óleo. Quando a religião se desfaz (ou vira religiosidade), as pessoas sofrem com a ausência de sentido. A alma humana abomina o vácuo. Se a fé em Deus se dissolve, seu lugar é rapidamente tomado por outros deuses: Natureza, Razão, Ciência, Evolução ou, mais frequentemente, a ideologia.


 

ALÉM DO ESQUEMA SUJEITO-OBJETO

O modelo cartesiano de se pensar a realidade direciona o homem a dominar a natureza fazendo dela um mero objeto de estudo. A sujeição do mundo à mente e à razão teve um resultado desastroso: a concepção de um mundo fechado, concluído e imutável; um mundo simples e raso, totalmente desprovido de mistério – uma máquina programada com rigor.

Ao invés de libertar as pessoas, ele a escravizou. A máquina substituiu o trabalho humano e, em seguida, os seres humanos passaram a ser escravos da máquina. Isso também trouxe implicações no campo da ecologia: degradamos a Terra, tratando-a como um objeto insensível de estudo.

É preciso uma reorientação básica, uma concepção de mundo holística e não analítica; uma ênfase na proximidade e não na distância; e um rompimento definitivo com o dualismo entre corpo e mente, sujeito e objeto. Assim poderemos conviver com o próximo e com a natureza nas bases dessa simbiose (associação heterogênea de dois seres vivos, com proveito mútuo).


 

REDESCOBERTA DA DIMENSÃO TEOLÓGICA

A eliminação do propósito e a sustentação do racionalismo linear e causal do paradigma iluminista fizeram, em última análise, com que o universo perdesse o sentido. Mas o seres humanos não conseguem viver sem sentido, propósito e esperança. No fim do século 19, porém mais claramente no século 20, ocorreu uma mudança radical da teologia não-escatológica para a escatológica. Isso acarreta uma ruptura fundamental com a idéia de que tudo deva ser predizível ou conseqüência natural de alguma lei, de algo que está imutavelmente dado. Reintroduziu-se a categoria de imprevisibilidade. A noção de mudança foi de novo conhecida como categoria tanto teológica quanto sociológica e está criando uma esperança quase ilimitada nos corações de milhares, especialmente dos menos privilegiados. A missão cristã passa ser conferida de uma nova relevância.


 

PESSIMISMO ANTIILUMINISTA

Um posicionamento cristão autocrítico pós-iluminista talvez constitua, no mundo moderno, o único meio de neutralizar as ideologias; só ele pode nos salvar da auto-ilusão e nos libertar da dependência de sonhos utópicos.


 

OTIMISMO MODERADO: uma oportunidade histórica

À nossa volta todos estão à procura de um novo sentido para a vida. Esse é o momento em que a igreja e a missão cristã podem, uma vez mais, humilde e resolutamente, apresentar a visão do Reino de Deus – não como uma bela promessa de cumprimento incerto, mas como realidade escatológica que lança seus raios, embora foscos, para dentro do presente sombrio, iluminando-o e conferindo-lhe sentido. É um caminho que vai além do otimismo iluminista e do pensamento antiiluminista.


 

O CAMINHO DA INTERDEPENDÊNCIA

O credo iluminista ensinava que cada indivíduo era livre para procurar sua felicidade independentemente do que outros pensassem e dissessem.

Demasiadamente autoconfiantes para reconhecer suas raízes religiosas, urbanos demais para serem enganados pelo engodo de alguma ideologia irracional, a aleternativa que lhes resta, em última análise, é o niilismo (a descrença absoluta).

Livres para usarem seu poder de maneira que quiserem, as pessoas modernas não têm ponto de rederência fora de si mesmas, nenhuma garantia de que empregarão sua liberdade responsavelmente e para o bem comum. A liberdade para crer no que quer que se decida crer resultou em crença alguma.